Mauro Osório – “Janelão”

O resultado do PIB 2011 confirmou que o Brasil possui a 6ª maior economia do mundo, tendo superado o Reino Unido. No entanto, em termos de PIB per capita ainda estamos bem abaixo dos países desenvolvidos.

O PIB per capita no Brasil é de apenas US$ 11,6 mil, contra um PIB per capita nos EUA, Japão, França, Alemanha, Portugal e Rússia de em torno de, respectivamente, US$ 48 mil; US$ 45 mil; US$ 44 mil; US$ 44 mil; US$ 26 mil; e US$ 17 mil.

Além disso, tivemos uma alta do PIB, em 2011, de apenas 2,7%, e no quarto trimestre de 2011 ficamos na 28ª posição em termos mundiais.

De acordo com Antônio Licha, professor do Instituto de Economia da UFRJ, no O Globo de hoje, esse crescimento foi fruto das medidas macro prudenciais tomadas no início de 2011, para conter o crédito, e que “tiveram efeito mais forte do que o esperado e a política fiscal também se tornou mais contracionista”.

É curioso como no início do ano uma boa parcela dos analistas desdenhavam da política macro prudencial, acreditando que seria ineficaz, sendo importante trabalhar apena com uma carga mais forte de elevação dos juros. Os críticos atualmente às políticas do Governo Federal de buscar conter a valorização do Real são basicamente os mesmos.

O resultado ruim do PIB foi puxado por um crescimento, em todo ano de 2011, da indústria de transformação, de apenas 0,1%. Como bem lembrou Roberto Olinto, coordenador de Contas Nacionais do IBGE, no O Globo de hoje, a indústria de transformação “é o núcleo central de uma economia”, pelos efeitos que gera para trás e para frente, demandando insumos e serviços.

O resultado do setor industrial está relacionado com problemas de competitividade que, por sua vez, tem relação com a valorização cambial, a precariedade em infraestrutura e uma estrutura tributária problemática, que, por exemplo, por um lado encarece a produção nacional e, por outro, facilita as importações, pelas políticas portuárias em alguns estados.

Entre 1984 e 2011, a participação da indústria no PIB brasileiro caiu de 35,8% para 15,3%. Enquanto isso, dados da ONU, de 2010, apontam que o peso da indústria na China e na Coréia era de, respectivamente, 43,1% e 30,4%.

Além disso, se em 2006 o saldo de comércio exterior da indústria de transformação era positivo em 29,8 bilhões de dólares, em 2011 o resultado foi negativo em 48,7 bilhões de dólares, fragilizando significativamente diversas cadeias produtivas do país. Parece inegável que essa mudança, em um período tão curto, está mais ligada à valorização cambial.

Sobre esse aspecto, é importante lembrar que, de acordo com dados do Banco de Compensações Internacionais (BIS), desde o início da crise foram despejados na economia mundial US$8,8 trilhões em liquidez pelos Bancos Centrais dos países centrais. Este número é simplesmente 3,5 vezes o PIB do Brasil em 2011. Isso aliado ao fato de a taxa Selic ainda estar em 10,5%, contra uma taxa nos países centrais próxima a zero, faz com que ocorra uma forte injeção de recursos financeiros no Brasil, forçando uma valorização cambial.

Quando o Banco Central começou a reduzir a taxa de juros, em meados de 2011, percebendo os efeitos que já ocorriam das medidas macro prudenciais e a piora da situação internacional, vários analistas criticaram estridentemente. Hoje, no entanto, a grande maioria dos analistas reconhece a correção das medidas do Banco Central a partir daquele momento.

Ontem, o Valor Econômico trouxe uma matéria sobre inflação com o seguinte título: “FIPE ratifica inflação mais branda no trimestre. Preços de alimentos, combustíveis e vestuário geram deflação de 0,07% no índice de fevereiro”.

Na 2ª feira, no jornal O Globo, George Vidor escreveu Coluna com o seguinte título: “Janelão”, apontando que: “A inflação recuou em fevereiro mais do que os prognósticos apontavam e com isso abriu um janelão de oportunidade para o Comitê de Política Monetária (COPOM) reduzir as taxas básicas de juros na reunião que se encerra hoje”.

Desde o período do início do Plano Real, a inflação desceu de elevador e os juros de escada. Sobre esse ponto, a citada Coluna do George Vidor traz o seguinte alerta: “Para a maioria dos analistas financeiros, juros muito elevados são um mal menor, um preço a se pagar para que a inflação seja dominada, como se não houvesse outra saída. Poucos têm intimidade com o dia a dia da produção e não conseguem enxergar o efeito colateral venenoso – ou não acreditam nele – dos juros altos. Por isso, o ajuste leva tempo, pois além dos fatores conjunturais e estruturais da economia, precisa superar o obstáculo que está enfurnado dentro da cabeça das pessoas. A inflação galopante causou muitos estragos aos brasileiros, um deles é a desconfiança no futuro da própria moeda”.

Como lembrava Antônio Barros de Castro, no século XX, até os anos 70, o Brasil vivia a convenção do crescimento. A partir dos anos 80 e 90, passou a viver a convenção da estabilidade. Está mais do que na hora de conciliarmos essas duas convenções.

Mauro Osório – “Janelão”
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