Sabedoria convencional e realidade


 
No final da semana passada, foi divulgado o PIB do segundo semestre de 2013. O crescimento de 1,5% surpreendeu a quase totalidade dos analistas, que previam uma taxa bem inferior.
 
O economista John Kenneth Galbraith tem, entre seus trabalhos, um artigo sobre “sabedoria convencional e realidade”. Nesse artigo, ele aponta que sabedoria convencional e realidade podem ser coisas distintas. Afirma que é muito mais seguro estar com a sabedoria convencional do que com a realidade.
 
Um exemplo do risco de abraçar a realidade em contraponto à sabedoria convencional é o artigo publicado pelo economista Chico Lopes, no jornal Valor Econômico, há em torno de um mês, em que ele afirmou que as análises econômicas estavam contaminadas pelo pessimismo e o resultado do PIB do segundo trimestre seria bem superior ao estimado. Chico Lopes, na ocasião, sofreu todo tipo de crítica, inclusive insinuações. Ou seja, como afirmou Galbraith, é mais seguro errar com os outros do que correr o risco de acertar sozinho.
 
Na linha do excesso de pessimismo, no início do ano, diversos analistas afirmavam que a inflação corria o risco do descontrole ou estava descontrolada. No entanto, entre janeiro e julho de 2013, o índice mensal de inflação do IPCA caiu de 0,86% para 0,03%; o IGPDI, de 0,31% para 0,14%; e o índice da FIPE/USP, de 1,15% para -0,13%. Na mesma direção, entre janeiro e agosto de 2013, o IPCA-15 apresentou uma queda da taxa mensal de 0,31% para 0,14%; e o IGPM, de 0,34% para 0,15%. Deve-se lembrar de que os autores que faziam previsões pessimistas trabalhavam com o câmbio entre R$ 2,00 e R$ 2,10, e não com os atuais e maiores níveis de câmbio, em torno de R$ 2,30 e R$ 2,40.
 
Na mesma direção, artigos alardeavam o descontrole dos bancos públicos. No entanto, os últimos balanços, publicados recentemente, pelo Banco do Brasil, Caixa Econômica e BNDES mostram lucros condizentes e uma taxa de inadimplência inclusive abaixo da média do setor privado.
Da mesma forma, economistas têm apontado criticamente que o Real foi a moeda que mais se desvalorizou. Sobre este ponto, Delfim Netto, em artigo recente, lembra o seguinte: “O fato de ter sido o Real a moeda que mais se desvalorizou é irrelevante. Não se pode esquecer de que a nossa moeda foi a que mais se valorizou ao longo dos anos, como consequência da política equivocada de usar o seu valor no controle da inflação. Um erro que nos fez pagar um alto custo no desenvolvimento industrial.”
 
Por último, o economista Jim O’Neill, professor da Universidade de Columbia e criador do termo BRIC, de acordo com o jornal Valor Econômico, afirmou que “o futuro do Brasil não é tão sombrio quanto se pinta”. Segundo o jornal: “Para ele [O’Neill] são exageradas as projeções de que o potencial de crescimento da economia brasileira seria de, no máximo, 2,5% ao ano. Para O’Neill, o Brasil ainda tem condições de crescer a uma taxa de 4%.”
 
É claro que o Brasil tem problemas e a evolução do PIB no terceiro trimestre será pior do que a do segundo. Além disso, é de fundamental importância que as concessões tenham êxito, para melhorar a infraestrutura brasileira.
 
No entanto, o debate político no Brasil se acirrou muito desde a eleição de 2010. Entendo ser importante procurar evitar que isso contamine a análise econômica.
 
Mauro Osorio – Economista

Sabedoria convencional e realidade
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